Isto não é uma reforma gramatical

Diante de um hiato de meses sem poder me dar ao luxo de sentar e escrever para esse pobre blog que não é blog, perdi inúmeras oportunidades sobre as quais nunca me perdoarei. Foram muitos motes deixados para trás. Ministra de cara nova, governo com mais pacotes que caixa de supermercado, lançamento de Watchmen e Spirit nos cinemas, popularização do Twitter, Ronaldo Fenômeno Circular depredando estádios, Xuxa insistindo em ver duendes e tendo orgasmos múltiplos, Barrichello conseguindo terminar uma prova… isso só pra citar acontecimentos recentes. Perdi essas e muitas outras oportunidades, mas o assunto tratado a seguir, por motivos de paixão pessoal, eu não poderia deixar passar em branco.

Há alguns meses, jogando videogame (com ou sem hífen?) com meu vizinho, iniciamos uma tórrida discussão – provando que nerds também discutem coisas úteis – sobre as mudanças que nossa amada Língua Portuguesa sofreu no ano novo (com ou sem hífen?).

Ao baixar uma demonstração de um jogo em nosso querido idioma – coisa que até certo tempo atrás era raro no mundo do entretenimento eletrônico – percebemos o tamanho da balela que é essa história de a reforma ortográfica ter como finalidade uniformizar o idioma dos países que compartilham de nossa lusitana língua.

Logo ao começarmos o jogo, nos deparamos com a maravilhosa frase ‘prima o start’. Assim que primamos o start, uma sub-tela (com ou sem hífen?) com os dizeres ‘a carregar’ nos foi apresentada. Ficamos ‘a esperar’ o carregamento e, momentos antes da largada – era um jogo de corrida – o jogo nos ordenou: ‘Prepara-te!’. Preparamo-nos, pois.

Nossa língua portuguesa

Nossa língua portuguesa

Mas peraí, essa é a nossa língua? Quem no Brasil fala desse jeito? Ou mesmo escreve, ainda mais em um meio tão informal quanto os videogames (com ou sem hífen?). Como tornar a grafia das palavras igual pode unificar o idioma de um punhado de países com características tão distintas? E mais: pra quê? Você tem algum interesse em falar a mesmíssima língua que a galera de Macau?

A língua estaria unificada se pudéssemos pegar um livro angolano e lê-lo (com ou sem hífen?) como se fosse escrito por um brasileiro. Ou comprar um DVD português e assisti-lo (com ou sem hífen?) com legendas idênticas ao atual PT-BR (com ou sem hífen?). Ou ainda comprar uma revista da Guiné-Bissau (com ou sem hífen?) e… raios, quem vai comprar uma revista da Guiné-Bissau (com ou sem hífen?)?

Nosso idioma foi construído por décadas de uso. E nosso idioma não é somente um punhado de palavras. É um punhado de palavras que formam frases, expressam idéias, participam de contextos… e os contextos são diferentes de país para país. Se o problema é a diferença entre nossa língua falada e escrita em relação ao português de outros países, assumamos de vez as diferenças e mudemos o nome do nosso idioma para Língua Brasileira. Ou quem sabe Língua Tupi-Lusitana (com ou sem hífen?)?

Vi no Fantástico, se não me engano, uma moça usando como argumento para o positivismo do acordo ortográfico o fato de os livros de José Saramago serem escritos em um português difícil de ser compreendido pelo leitor brasileiro. Claro, lembrou disso só porque Saramago estava na crista da onda depois do lançamento do filme ‘Ensaio sobre a Cegueira’, já que, com aquela cara de estudante universitária, nunca teria ouvido falar do autor se não fosse pela sessão de cinema e TV da Folha de São Paulo onde ela lê o capítulo de amanhã da novela da Globo. Primeiro: compreender José Saramago é para poucos. O cara tem um idioma próprio. Quem já leu alguma coisa dele sabe. Segundo: minha filha, o fato de ‘acção’ passar a ser escrito com um ‘c’ a menos para os Joaquins não significa que os escritores de Portugal vão passar a escrever no mais claro português brasileiro. Mesmo porque o português brasileiro mesmo é subdividido (com ou sem hífen?) em vários idiomas regionais. Aqui a gente entra no fim da fila. Lá eles entram no rabo da bicha. Tirando o Ronaldo, que curte o esporte, isso não vai mudar.

Pois eu, caro leitor paciente que teve a boa vontade de chegar até aqui nesse texto cri-cri (com ou sem hífen?) e implicante, sou a favor de, ao invés de unificar o idioma, subdividi-lo (com ou sem hífen?) ainda mais. Dito isso, tenho algumas regras a sugerir, às quais dei o nome temático de ‘Isto não é uma reforma gramatical’:

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1. O fim do plural em São Paulo.
Orra, meu! Como bom descendente de italiano, sugiro que esqueçamos essa frescura toda de plural, tá ligado?

Exemplo 1:
“Que hora são?” – Note que, nesse caso, só pronunciamos o ‘s’ da palavra ‘hora’ pois esta é seguida de uma palavra iniciada com a mesma letra.
“São oito hora, mano”.

Exemplo 2:
“Essa chuva molhou tudo meus pé”. – É importante lembrar que ter dois pés, a não ser que você seja perneta, é comum. Pra que então sermos redundantes pronunciando uma letra desnecessária?
“É, mano, anda dando várias chuva”.

Exceção à regra:
A palavra ‘chopes’ foge à regra do plural paulistano, sendo a única do idioma a se pronunciar no plural não importando a situação.

Exemplo:
“Me dá dois pastel e um chopes”.

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2. Transformar ‘filha da puta’ (com ou sem hífen?) em substantivo comum de dois gêneros.

Analisemos as seguintes situações:
a)    Uma mulher te dá uma fechada no trânsito. Você grita “Vai se foder, sua filha da puta!”.
b)    Um homem te dá uma fechada no trânsito. Você grita “Vai se foder, seu filha da puta!”.

Note que, na hora da raiva, não paramos para pensar na concordância do sexo do rebento da vagabunda. Isso não importa. O que importa é o impacto do grito, intensificado pelo teor de insignificância alheia quando nem se está preocupado se o interlocutor é homem ou mulher.

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3. Substituir o ‘s’ por ‘x’ e o ‘r’ por ‘rr’ no Rio de Janeiro de acordo com a fonética.

Exemplo 1:
“Caraca, deixa de caô e vamox pra praia, merrmão”.

Exemplo 2:
“Coé merrmão, essex paulixtax sabem nada de sãrrf”.

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KY, duas das novas letras do noso alfabeto

KY, duas das novas letras do nosso alfabeto

4. Com a inclusão das novíssimas letras K, Y e W no nosso alfabeto (que ninguém estava acostumado a usar, afinal não temos nenhuma Karen, Kauê, Kauã, Kaíque, Keirrison, Yuri, Yudi, Washington, Wellington, Wallace e William por aqui), a região sul do país poderia ganhar um alfabeto ainda maior com a inclusão de notas musicais para que pudessem, além de falar cantando, escrever cantando também.

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5. Esta é mais séria, mas isso não significa que as outras não sejam. ‘Tchau’ é uma das palavras mais ridículas da nossa língua. Graças ao uso constante, acaba sendo de fácil assimilação, mas vai explicar pra criançada por que o pedreiro do bairro se chama Tião e não Tchão. Teria muito mais nexo escrevermos ‘tiau’ ou, se quisermos simplificar de vez, manda um ‘xau’ logo e todo mundo vira miguxo.

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Aliás, o miguxês sim é evolução idiomática de verdade. C minhas novas regras naum forem aceitas…sugiru entaum ke dexemus essa bestera d reforma gramaticau d ladu i komecemus todus a escreve (i falah…klaru) nessi nobre idioma taum bunitu i fofuxu.

Para aprender mais sobre o miguxês, acesse o grande Miguxeitor, o Tradutor Online (com ou sem hífen?) de Português para Miguxês.

Pra terminar, acho a maior injustiça o que fizeram com o trema. O pobre sinal gráfico estava lá, na dele, sem fazer mal a ninguém, mas resolveram sumir com o coitado. Agora a crase, aquela filha de uma puta que apronta pra cima de todo mundo, que faz um monte de gente ficar com cara de otário quando é corrigido, que faz o orgulhoso ter que se rebaixar e perguntar “tem crase aqui?”, essa continua firme e forte. Sério, o trema é uma perda para a nossa língua.

Fui funcionário público durante 3 anos e só Deus sabe quantas vezes escrevi a palavra ‘quinquênio’ – uma dessas palavras que só usamos em meio ao pó e à futilidade de certos papéis do serviço público. O Word me recomenda pronunciar ‘qüinqüênio’ (cuincuênio). Eu sempre falei quinqüênio (kincuênio). Conheço pessoas – e falo sério, elas existem – que  preferem quinquênio (kinkênio). Diante disso, dá pra perceber a importância do trema? Portanto, se quer continuar pronunciando ‘cincoenta’, não escreva ‘cinquenta’.

Bobeira dificultar mais as coisas em país de analfabeto. Por trabalhar na imprensa, participei de algumas aulas sobre as novas regras. Pobres palavras hifenizadas. Algumas novidades não fazem o menor sentido. Se nossa língua já era um mistério para muitos antes, como gente da laia do Rubens Ewald Filho, que não dominam o idioma, vão se virar agora?

Apesar que, pensando bem, pra que escrever direito, se brasileiro não sabe ler mesmo?

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Ode ao álcool, a causa e a solução de todos os nossos problemas

Há alguns dias presenciei uma cena interessante que me fez refletir sobre um assunto muito importante e em pauta atualmente. Dirigindo por uma das principais avenidas do Largo Treze de Maio, no centro de Santo Amaro, uma das regiões mais movimentadas da capital paulista, me deparei com um senhor que, claramente bêbado, ao recostar-se em um poste, caiu de maduro e ficou ali, estirado, entre a calçada e a rua, com a cabeça no meio-fio. Como estava prestando atenção na queda, desviei a tempo. Parei no semáforo alguns metros adiante e fiquei de olho no retrovisor. Sem dúvida o fim do pobre homem seria trágico. Que nada! Ônibus, carros e motos, aos montes, um a um, desviavam na última hora da cabeça no meio do caminho.

Segui viagem pensando no que havia visto e me lembrei de uma situação parecida. Há muitos anos, eu e meu amigo Renato (mais conhecido como James Negão, vulgo Edemésio), estávamos indo para casa tarde da noite. Ao chegarmos no ponto de ônibus, observamos com muito desprazer uma enorme poça de vômito que tomava toda a calçada. Enquanto tentávamos descobrir se o autor da obra havia ou não comido ovos fritos, percebemos um senhor descendo a rua, cambaleando pela calçada em nossa direção. Como não sentimos nenhum tremor de terra, chegamos à conclusão de que ele estava mesmo bêbado. Nossa expectativa em ver o pudim-de-cana enfiando o pé no vômito crescia a cada passo. Até apostávamos se, ao escorregar, ele ia cair de costas ou de boca, engolindo os restos dos ovos fritos (sim, acredito que, afinal, havia ovos fritos ali). Para nossa surpresa, o cachaceiro pisou aqui, pisou ali, dobrou o pé acolá, trançou as pernas e atravessou o mar de comida mal-digerida com toda classe do mundo. Tenho até a sensação de que piscou pra gente, esboçou um sorriso e disse “Banzai, otários”. Tudo bem, essa última parte eu inventei, mas o resto é tudo verdade. Meu amigo James Negão, tão perplexo quanto eu, definiu bem o milagre que acabávamos de presenciar. “Deus protege os bêbados”, disse.

Fato incontestável. Verdade universal. Lei que rege o cosmos. Dito de Zaratustra. Deus protege os bêbados. Fosse eu, sóbrio, depois de escorregar em uma casca de banana, ali caído no meio-fio, e minha família já poderia providenciar o velório com caixão lacrado, pois defunto decaptado ninguém quer ver. Fosse eu ainda, indo para o trabalho, roupa limpa e passada, encontrando uma poça de vômito na calçada, já poderia me preparar pra engolir um pouco dos ovos fritos.

Pode perguntar pra qualquer um depois da ressaca. A aventura vivida na noite da bebedeira é sempre tão intensa e, ao mesmo tempo, tão espontânea e fruto do acaso (aqui mostrado como intervenção divina resultante da proteção de Deus aos bêbados), que o sujeito nem se lembra do que fez. Ele não se lembra de ter chamado o grupo de skinheads que estava em um canto do bar de nazistas, de ter mexido com a namorada do halterofilista da mesa ao lado e nem de ter chamado o policial de coxinha na volta pra casa. E o fruto de toda essa aventura é uma mera dor de cabeça. Coisa que passa.

Como eu disse, tudo isso me fez lembrar de um dos assuntos mais falados hoje em dia: o álcool. Depois da lei seca no trânsito, o moralismo alcoólico do brasileiro atingiu patamares inimagináveis. Esqueceram-se de que vivemos no país do biodiesel. O presidente até arruma desculpa para plantar mais cana. A cachaça é o combustível do nosso país. Com a opção do éster renovável, o álcool não promove só cus sem dono, mas também move a economia da nossa nação totalflex. Informantes confiáveis afirmam que o Pré-sal tem como principal finalidade servir como fonte quase inesgotável no tempero de petiscos para acompanhar a cervejada.

Sou contra a lei seca no trânsito. Acho, inclusive, que as pessoas deveriam ser encorajadas a beber antes de dirigir. Ou até mesmo antes de sair de casa. É uma questão de lógica: quem bebe não corre riscos. A vítima é o sóbrio que, sem poder desfrutar da proteção divina aos bêbados, tem o azar de entrar na frente justamente de um carro pilotado por um cachaçado. Cachaçado este que não vai, em hipótese alguma, frear em cima da hora, jogar o carro na contra-mão ou contra um muro, entre outras alternativas perigosas para si mesmo, simplesmente para poupar a vida de alguém que bebeu pouco (ou nada) e, justamente por isso, teve o azar de entrar na frente de um carro em alta velocidade.

Comece a reparar nos noticiários. O pobrezinho atropelado, invariavelmente, estava saindo da escola, do trabalho ou até mesmo da igreja. Nunca do bar. Quem estava saindo do bar era o motorista. E ele continua vivo! Se a vítima estivesse bêbada, não seria vítima, seria discípulo de Chuck Norris. Daria uma pirueta pra trás quando o carro chegasse perto, emendaria um duplo twist carpado, aterrisaria são e salvo do outro lado da rua e ninguém sairia ferido. Mais tarde motorista e pedestre poderiam até tomar uma birita juntos em comemoração ao acontecido.

Que fique claro: não estou aqui defendendo a tese de que fiz uma descoberta incrível. A proteção divina aos bêbados é fato conhecido há tempos, só não se admite por puro moralismo. Exemplos não faltam. Veja o Zeca Pagodinho. Vive vadiando, deixando a vida levar, já arrumou briga com a máfia cervejeira, só come o bagaço da laranja, mas mesmo assim está aí, firme e forte. E quem não conhece Jeremias José? O cara viveu a vida mais do que qualquer um. Já foi preso várias vezes, xingou o delegado, virou celebridade na internet e na televisão, emplacou um funk de sucesso, bebeu no inferno junto com o cão… É aventura que não acaba mais. Tudo fruto da marvada pinga. Até na ficção os benefícios da ebriedade estão presentes. Barney Gumble, famoso personagem bebum de Os Simpsons, também vive a vida plenamente. Já foi cantor, piloto de helicóptero, astronauta, diretor de cinema, entre outras coisas. A série inclusive faz menção à proteção divina aos bêbados na forma de um elefante cor-de-rosa, que Barney chama de ‘Rosinha’ (os fãs de verdade vão lembrar dessa). Todo mundo sabe disso, pra que esconder?

A contribuição do álcool para as nossas vidas é enorme. Vai desde o acendimento da churrasqueira até o auto-embelezamento da sua patroa. Voto para que a cachaça passe a fazer parte da merenda escolar de nossas crianças. É de pequeno que se aprende. Voto para que a fiscalização com o bafômetro se intensifique. Bebeu pouco? Volta pra casa. O camarada precisa estar pelo menos trançando as pernas para andar seguro por aí. Nossa vida apresenta uma janela de oportunidades e o álcool nos ajuda a viver cada uma delas plenamente, sem nos preocuparmos com as conseqüências. Reflita sobre os exemplos que dei e pense nas aventuras que você está perdendo por não beber. A vida só vale a pena quando vivida perigosamente. Como dizem, quem não bebe não tem história pra contar. É uma pena que quem bebe também não tem, pois no dia seguinte não se lembra de mais nada. Mas deve ser melhor assim. Afinal, dizem que cu de bêbado não tem dono. Tem coisas que deve ser melhor não lembrar mesmo. Pelo menos saiba que será violado com proteção. E divina.

Eu, como não agüento (e nem quero), sigo bebendo leite.

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O pior cego é aquele que não quer ver

“Deprimente”, opinou o jornal The New York Times. Praticamente toda a crítica norte-americana massacrou ‘Ensaio sobre a cegueira’, novo longa de Fernando Meirelles, que ficou conhecido lá fora por ter dirigido Cidade de Deus, outro daqueles filmes do movimento favelista pelo qual o cinema brasileiro passou nos últimos anos. O estado de sítio brasileiro, mais especificamente do Rio de Janeiro, tem se mostrado um ótimo mote para o cinema nacional. Rende frutos mil. Já a ficção nunca foi nosso forte, ao menos fora das novelas. E nunca será, ao que parece, se depender da aprovação da terra dos grandes blockbusters.

A ditadura hollywoodiana prega que terceiro-mundistas não sabem contar histórias que não sejam baseadas na miséria de suas terras natais. Se uma população deve ser dizimada, que seja a de Nova Iorque. Se uma cidade deve ser destruída, que seja São Francisco. São Paulo não é digna de tal honra, ainda que, como acontece na história de ‘Ensaio’, seja uma cidade fictícia, representação genérica de qualquer cidade do mundo, habitada por quaisquer pessoas, não à toa chamadas apenas por ‘médico’, ‘mulher’ ou ‘velho’. São avatares do mundo moderno. São eu, você e também são os críticos que reclamaram do filme, ainda que estes não aceitem sê-los.

O filme de Meirelles é sublime no que se propõe: adaptar a obra consagrada de José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura, que trata do comportamento humano com a delicadeza de um elefante bêbado correndo num campo de margaridas. É direto. É reto. Não acoberta e nem sublimina. Joga a merda no ventilador e que se limpe quem achar que merece mais crédito do que as personagens do filme. Personagens estas que perdem, junto com a visão, a pose de racional do ser humano. Ironicamente, a única que se mantém ‘pessoa’ em meio a tantas ‘criaturas’ é quem se vê cega quando percebe que conheceu a verdadeira natureza do homem.

Alguns críticos reclamam do fato de o filme ser pesado, sórdido. Enganam-se. Pesado e sórdido, além de deprimente, é saber que ali estamos nós retratados. Do patrão que grita com o funcionário para satisfazer o próprio ego ao ladrão que quer tirar vantagem do trabalhador, estamos representados na metáfora da perda da visão que traz consigo o abandono da necessidade de se manter a pose frente ao próximo. Rebaixados à condição de animais, do médico à prostituta, todos mostramos – e, para apreciar o filme, temos que nos incluir nisso – o que somos por trás da carapaça que a sociedade nos faz usar.

Se a experiência comportamental está toda lá e é fiel à obra original, que analisem a parte técnica do longa. E aí as críticas se tornam mais infundadas ainda. A câmera de Meirelles é inquieta como deve se tornar a mente de alguém que perde um dos sentidos básicos e se vê enjaulado como um animal selvagem e descartado da sociedade. Os ângulos incomodam e a irregularidade é inquietante aos nossos olhos assim como a história é ao nosso orgulho. As cenas mais fortes são amenizadas pela falta ou pelo excesso de luz, e só contribuem para salientar a sensação de impotência e medo do desconhecido que a cegueira proporciona. O estupro coletivo não é mostrado, mas é sentido. A edição de Daniel Rezende é curta e grossa. É realista, eficaz e, ao mesmo tempo, contestadora assim como a direção. O arroz-com-feijão de takes que poderiam ser básicos como em todo grande blockbuster é substituído por uma salada de beterraba com chuchu que te faz perguntar o porque de estar vendo aquilo. Não gosta de beterraba com chuchu? Nem eu. Meirelles parece saber disso e usa contra nós, mas a favor de seu filme aos que conseguem perceber a janela por trás do pano fino da cortina. A cada novo grupo de ‘internos’ que chega ao complexo onde os doentes são colocados em quarentena, a cegueira nos brinda com seres esguios e deformados, quase imagens caricatas de extraterrestres, mostrando o desconhecido pavoroso que representam a um deficiente visual desde um simples obstáculo no caminho até um semelhante a dez metros de distância. Pelo incômodo, a direção, a edição e a fotografia de ’Ensaio’ chocam. E brilham.

Críticas às atuações também não faltaram. Tentemos partir do princípio de que em terra de atores ex-BBB quem tem olho é rei, com o perdão do trocadilho temático. Hollywood com suas apresentações burocráticas há muito deixou de ser referência para atuações majestosas. Temos, claro, casos que se sobressaem. Tanto para o bem quanto para o mal. Mas de Tom Hanks a Ben Affleck, atuar nada mais é que um ofício. Questionar atores como Mark Ruffalo, Julianne Moore e Danny Glover em tempos de Ísis Valverde como exemplo é, no mínimo, contraditório. Deixemos os americanos, que vêem mais magia no Gollum computadorizado de ‘Senhor dos Anéis’ do que no ser humano exposto aos seus limites, reclamarem de seus próprios atores.

‘Ensaio sobre a cegueira’, em mãos erradas, poderia sair um belo filme de zumbis digno de George Romero e suas noites, tardes e madrugadas dos mortos. Em certos pontos, a metáfora de desordem social até se assemelha aos clássicos filmes apocalípticos. Mas o monstro em questão é o próprio ser humano. Não transformado aqui em zumbi e com fome de cérebro, mas exposto à sua condição de animal e com fome de amor, carinho, zelo, aceitação, comida, orgulho, sexo, poder e tantas outras coisas de tal modo que, na ausência de tudo que preza, perde totalmente a dignidade que ostenta quando mantém as aparências.

Mas como argumento incontestável a favor do filme, Meirelles tem um trunfo que pode garantir boas noites de sono com sabor de dever cumprido. Saramago, sempre avesso a qualquer tentativa de adaptação de seu best-seller para as telonas sob a alegação de que o cinema contribui para a destruição da imaginação, deu muito mais do que seu aval ao filme. Ao final da pré-estréia, quando as luzes se acenderam, Saramago chorava. “Fernando”, disse o escritor, “estou tão feliz por ter visto este filme quanto estava quando acabei de escrever o livro”. Meirelles agradeceu com um beijo na testa de Saramago, que continuou tentando conter as lágrimas. Com a mão no rosto, o diretor parecia não acreditar no que havia ouvido. A imprensa americana que diga o que quiser. Meirelles já ganhou o melhor presente que um diretor pode querer por uma adaptação.

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Extra! Extra! Vírgula, separa sujeito do verbo!

Quem não se lembra de ouvir o professor repetir inúmeras vezes que sujeito e verbo não se separa com vírgula? A resposta é simples: ninguém. Hoje em dia, lembrar de alguma coisa ensinada na escola é raridade. Escrever corretamente então, mais raridade ainda. Muita gente adota a política conformista do “Deu pra entender? Então tá bom”. Essas pessoas só se esquecem do fato de que inteligência e conhecimento não deveriam ser considerados luxo. No Orkut e no MSN pode até ser legal, prático e ‘cool’ não saber escrever e, por isso, fazer tudo de qualquer jeito usando a tal desculpa conformista. Mas existem horas em que é preciso usar tudo aquilo que aprendemos. O problema é que a maioria das pessoas não aprendeu…

Faço faculdade de Jornalismo e fico abismado com alguns erros que vejo de vez em quando. Esses dias me deparei com um título de um aluno que dizia que o futebol feminino era ‘um dos destaques brasileiro nas olímpiadas’. Imagino que o autor do texto pensou que, se o destaque é um só, usar ‘brasileiro’ no singular seria a melhor opção. Acho até um argumento válido, se fosse apresentado pela minha avó, que só fez até a 8ª série, há 60 anos, tem tanto problema na vida que esqueceu tudo que aprendeu e mesmo assim é mais inteligente – de uma forma especialmente dela, claro – do que muito pós-graduado que eu conheço. Mas de alguém que espera ser jornalista e viver de escrever, é inadmissível. Fazendo uma comparação simplista e sinteticamente falha, mas que pode exemplificar bem o tipo de pensamento errôneo que as pessoas têm nesses casos, se o futebol feminino era um dos destaques brasileiro nas olimpíadas, então a cerveja desce redonda. Erro de concordância é erro básico.

Quando percebo e corrijo esse tipo de erro, atitude corriqueira pra mim, sou chato, fresco, metido e arrogante. Repito: escrever corretamente é luxo. E se corrigir um erro crasso desses é frescura, imagine só reclamar de uma vírgula. Uma coisa tão pequena, tão insignificante. Um ponto com rabo…

“Vírgula não separa sujeito de verbo”. Essa frase parece que já virou ditado popular. Observe que eu disse que ninguém lembra do que os professores ensinam, e não do que todo mundo fala o tempo todo. O problema é o papagaismo – decorar, recitar e nem saber o significado do que se está falando.

Há alguns anos, durante a administração daquela prefeita que usa o sobrenome do ex-marido porque é mais chique que o dela, as lotações apresentavam um belo adesivo com o logotipo da SPTrans, da Prefeitura Municipal (pleonasmo maravilhosamente encontrado em várias cidades do nosso belíssimo estado) e uma frase primorosa: “O transporte do idoso, tem a nossa preferência”. Assim mesmo, com vírgula separando o sujeito do verbo. Acredito que na hora de elaborar o tal adesivo o pessoal de Comunicação da Prefeitura estava relaxado. Relaxou tanto que acabou gozando e não prestou atenção no que fazia.

No caminho para a casa da minha namorada sempre reparo em uma plaquinha bonitinha, símbolo do que acho interessante chamar de autruísmo obrigatório – por mais contraditório que isso pareça – ou da lei da compensação universal que assombra as empresas atualmente. “A viação Campo Belo e você, preservam este local”, diz o aviso. Além de escreverem errado ainda me colocam no meio.

Sou da opinião de que, quando você se propõe a fazer alguma coisa, que faça direito. Como diria um primo meu, “Não sabe dirigir, não ‘direge’!”. Se você vai escrever uma plaquinha pra colocar na rua e todo mundo que passa por ali ler, que pelo menos saiba escrever. Se não sabe, procure ao menos se informar pra não fazer besteira.

Esse assunto me veio à cabeça porque, dia desses, reparei nesta propaganda, que vem sendo veiculada há alguns meses, sobre planejamento familiar. Vale lembrar que o filme é do Governo Federal.

Coitada da pobre senhora. Ela tem que desempenhar o papel de pai e mãe e não lhe sobra tempo para estudar. “Responsabilidade, é coisa pros dois”, ela diz. “Respeito, é coisa pros dois”, emenda, não contente com um só erro. Como um é pouco, dois é bom e três quase formam uma mão do Lula completa, “Camisinha, é coisa pros dois”, completa. O que é coisa pros dois? Responsabilidade, respeito e camisinha. Três sujeitos separados do verbo por vírgula. Será possível que a agência responsável pela campanha não possui um corretor gramatical? Ou será que nosso amado presidente escreveu, ele mesmo, o texto?

Quando contei para algumas pessoas sobre isso, ouvi a clássica resposta que permeia qualquer argumentação sobre vírgulas. Dizem que a vírgula está ali porque a atriz faz uma pausa na fala. Se fosse assim, cada pessoa usaria a vírgula de um jeito. Meu vizinho, gordo e asmático, tascaria vírgula entre cada palavra. Uma amiga da minha mãe que liga aqui de vez em quando e fica três horas no telefone não usaria uma vírgula sequer. Caetano Veloso seria uma vírgula ambulante.

O pior é que, não contentes com esses três erros, o nome da campanha, dito em alto e bom som, ainda termina de assassinar a gramática e violentar a fonética. “Se cuide. Filho não é brincadeira”. Filho não, mas nossa língua é. Pronome oblíquo não inicia frase. Próclise, outro erro básico. Ninguém vai sair na rua gritando “Ouve-me, amor de minha vida. Amo-te. Quero-te. Faz-me feliz!”. A próclise é comum na linguagem falada. Mas é proibida na norma culta da língua escrita. Se isso foi escrito desse modo de propósito para tentar uma aproximação com o público – o que me soa desnecessário, já que não se trata de uma campanha publicitária pra vender camisinha, filho e nem mulher separada – que mandassem logo um “Se cuida”. Eu esperaria até um ‘companheiro’ no final. Espero que o investimento em planejamento familiar dê retorno e sobre uma verba pra investir em educação.

Voltando ao assunto principal: “Então nunca se coloca vírgula entre o sujeito e o verbo?”, você me perguntaria.

Não perguntaria? Bom, vou falar sobre isso do mesmo jeito. Lembro de uma professora que tive quando era criança pequena lá em Barbacena, que, em um belo dia, me ensinou que existem casos em que a vírgula é aceita. Não é necessária, mas é aceita. Não me lembrava direito dos casos, mas encontrei uma coisa interessante. Vejam o nome do livro do japinha batuta que 10 entre 10 professores brasileiros já tiveram que ler pelo menos uma vez na vida:

Pergunta clássica ao verbo para encontramos o sujeito da oração: quem educa? Quem ama, claro. Então o sujeito é “quem ama”. Opa! Vírgula entre o sujeito e o verbo detectada. Erro? Não. A vírgula não se faz necessária, mas pode ser usada. A frase poderia ser escrita sem ela e teria o mesmo efeito: “Quem ama educa”. Mas optaram por colocar ali uma vírgula, provavelmente por tratar-se de dois verbos em seqüência. Eu não colocaria, mas ela está lá e temos que conviver com ela.

Existem outros casos onde a vírgula é permitida entre o sujeito e o verbo. “Aquelas duas gatinhas pretas com pequenas manchas brancas nas costas que adoram brincar com o novelo de lã roxo em dias frios de inverno e miam sem parar quando alguém lhes tira a ração antes de dormir, morreram”. Quem morreu? Aquelas duas gatinhas pretas com pequenas manchas brancas nas costas que adoram brincar com o novelo de lã roxo em dias frios de inverno e miam sem parar quando alguém lhes tira a ração antes de dormir. Sujeito de Itu também permite vírgula. É necessária? Não, mas ajuda. O tamanho do sujeito e a quantidade de verbos nele podem confundir algumas pessoas. É uma questão de bom-senso. Acho que não tenho muito, pois não usaria nesse caso também.

A propósito, o título deste artigo está errado. Mas não estou nem aí, nem o pessoal do Governo Federal sabe escrever, por que eu teria que saber?

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Pra não dizer que não falei das olimpíadas

A contragosto, retirei as imagens do corpo da mensagem. O site estava ficando muito pesado. Portanto, clique nas frases para acessar as imagens:

It’s raining men! Aleluia, it’s raining men!

– Aaahhh.. tô a fim não…
– Pára, gatão, tira essa roupa e vem pra cá.

Sessão de descarrego com o pastor Motumbo.

– Vai, agora é dois pra lá, dois pra cá…

– Sério, bicho, quando você fica de quatro sua bunda fica desse tamanho.

Bença, pai.
– Deus te abençoe, meu filho.

– Ai, doutor, sei lá… ando sentindo uns odores estranhos. 
– Abre bem pra gente examinar.

Força na peruca!

– Achôôôôô!

-Meu sonho sempre foi ter alguém pra dormir de pés enroscados.

“A Lenda do Nadador Sem Cabeça”.

– Vem cá negão, que eu faço você acordar rapidinho.

– Ah, se eu pego o filho da puta que colou esse chiclete no meu cabelo…

Huhauahauhauahuahauahua! Um pé!

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C’est dur dur d’être bébé

– E aí, véio?

– Beleza, cara?

– Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.

– Quer conversar sobre isso?

– É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?

– Como assim?

– Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?

– Nunca.

– Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça? E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?

– Sabe a sua vizinha ali da casa amarela? Minha mãe diz que ela tem uma hortinha no fundo do quintal. Planta vários legumes. Será que sua mãe não quis dizer que seu pai deu um pulo por lá?

– Hmmmm… pode ser. Mas o que será que ele foi fazer lá? VIXE! Será que meu pai tem um caso com a vizinha?

– Como assim, véio?

– Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou filho da vizinha. Só pode!

– Calma, maninho. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.

– Sei lá… Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre a minha mãe.

– Tipo o quê?

– Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Puta maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!

– Caramba! Mas por que ela fez isso?

– Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.

– Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.

– E sabe a Francisca ali da esquina?

– A Dona Chica? Sei sim.

– Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada vendo o gato berrar de dor.

– Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.

– Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe, né? Ela me contou isso de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim. Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um tal de boi com cara preta aí pra me levar embora.

– Nossa, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho.

– Mas é ruim saber que o casamento deles é essa zona, né? Que meu pai sai com a vizinha e tal… Apesar que eu acho que ele também leva uns chifres, sabe? Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara, que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de ‘Anjo’. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele pode passar desfilando e tal.

– Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.

– É… só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo veio me falar que a vizinha cria perereca em gaiola, cara. Vê se pode? Só tem louco nessa rua.

– Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?

– Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito…

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Este post é dedicado a minha priminha Giulia, que está para chegar a qualquer hora.

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Aparelho eletroacústico para torrar o saco

Veja que velhinho batuta:

Semblante singelo, não? Barbinha branca, terninho arrumadinho, ar sereno… Poderia até se vestir de Papai Noel e fazer a alegria da criançada nos shoppings. Mas este nobre senhor é uma das pessoas que mais me irritam nessa vida. Bom, não tenho nada contra ele, particularmente, mas contra o que ele fez. Talvez ele não tenha feito por mal. Pode ser que não teve a intenção de me torrar o saco. Mas o caso é que, querendo ou não, conseguiu. E por isso, mesmo que involuntariamente, ele é culpado.

Seu nome é Alexander Graham Bell, escocês nascido em 1847 a quem é atribuída a invenção do telefone (ainda que existam controvérsias). Acho improvável que ele tenha inventado o telefone só pra me provocar, já que nunca fiz nada pra ele, mas o fato é que a invenção do tio Bell é um porre. Não pelo invento em si, que, sem dúvidas, é de extrema utilidade para o homem (apesar de ser muito mais usado pela mulher), mas pelo que as pessoas fazem com ele.

Quem nunca soltou um puta que pariu ao ouvir o toque do telefone naquela hora imprópria que atire a primeira pedra. O dito cujo pode ter tocado o dia todo, mas você só vai se lembrar daquela ligação que te fez voltar pra atender bem na hora em que você corria desesperado pra soltar um barrão. E se não era engano, era algum chato que costuma ficar três horas falando sobre o tempo ou contando o filme que viu na Sessão da Tarde de ontem, sobre uma turminha da pesada que apronta várias confusões.

Poucas pessoas usam o telefone para alguma coisa realmente útil. Poucas pessoas usam o telefone de forma rápida e objetiva. Poucas pessoas têm limites e ‘semancol’ quando o assunto é telefone. Eu odeio telefone. Ponto. Odeio há muito tempo e hoje foi um dia exemplar para os porquês do meu ódio.

Estou de férias do serviço e da faculdade. Sozinho em casa, quero sossego, paz e tranqüilidade. Às onze horas da manhã, o telefone tocou pela primeira vez (acho, pois quando estou dormindo ele pode esgoelar que eu ligo o foda-se e nem ouço). Olhei o número. Era minha mãe. Como estava com a boca cheia de pasta, nem me preocupei em atender. Dificilmente ela liga pra falar alguma coisa importante. Meia hora depois o telefone tocou de novo. Eu estava no computador. Corri pra atender. Era ela de novo. Quando atendi, ela já tinha desligado. Levei o telefone comigo. Mais de uma hora se passou e nada de tocar de novo. Resolvi fazer alguma coisa pra comer. TRIRIRIRIMMMMM. Cadê? Esqueci no quarto. Corri pra atender. Era ela de novo. Não deu tempo de novo. Levei o telefone para a cozinha. Comi, vi televisão, vagabundeei, bati na gata que derrubou a lata de lixo pra roubar frango… e nada do telefone tocar. Resolvi tomar banho, pois tinha dentista às 16:30. Mal ligo o chuveiro, ouço o telefone tocar. Uma, duas, três, quatro vezes…. Quando saí do banheiro, havia 7 chamadas não atendidas. Entre elas, algumas do meu pai e da minha avó. Fui ao dentista. Voltei. 8 chamadas não atendidas! Enquanto eu via ‘mãe’, ‘pai’ e ‘avó’ na lista, ele tocou.  Atendi.

– Alô.
– Oi, vó.
– Você não atende o telefone não? Sua mãe ligou aí, você não atendeu, aí ligou pro seu pai pra ele te ligar, você não atendeu, depois ligou pra mim pra eu ligar aí, você não atendeu… tá louco. Ela tá deseperada, precisando falar com você.
– Eu não tava aqui. Fui no dentista. O que ela queria?
– Avisar pra você não esquecer de ir no dentista.

O telefone na minha casa toca tanto que, certo dia, irritado, atendi dizendo “Casa da salada, qual o seu pepino?” Ainda bem que era gente da família.

Acho interessante como as pessoas ficam nervosas quando não são atendidas. Como se o mundo fosse obrigado a parar quando o telefone toca. “Parem o lançamento do foguete, desativem as turbinas, a exploração de Mercúrio vai ter que esperar, o telefone está tocando! Alô? Coronel, é sua mulher. Ela quer saber se o senhor vai jantar em casa hoje”. Completar a tal ligação acaba se transformando no objetivo do dia. Nas minhas últimas férias, no meu primeiro dia em casa, me ligaram do trabalho. Não atendi. Fiquei com raiva. Queria distância de trabalho. Ligaram o dia todo em vão. No dia seguinte resolvi atender:

– Fernando, a gente precisa da senha do não-sei-o-quê. Ontem não fizemos nada, ficamos o dia todo ligando pra você.

Eu percebi que eles ficaram o dia todo ligando pra mim, mas poxa, que falta do que fazer, não? Aposto que deixaram de fazer um monte de outras coisas pra ficar me ligando e reclamando por eu não atender o telefone. O pior é que a senha nem era minha e era o RG da chefe. E eu, em casa, de férias, que tenho que falar a tal senha? Isso que é gostar de incomodar os outros à distância. E o telefone é a arma perfeita pra isso. As pessoas perdem o tempo que poderiam estar usando para encontrar soluções para seus problemas tentando ligar para outras pessoas a fim de perguntar a solução para o tal problema ou mesmo reclamando do fato de a tal pessoa, que talvez possa ajudar a resolver o problema, não atender o telefone para tentar ajudar a resolver o problema. É um problema sério.

Tenho um tio que fica louco da vida quando não consegue falar com alguém. A família toda já conhece o bordão: “Quer trocar essa merda de celular por um kichute?” Nunca liga pra falar nada de útil, mas liga sempre. E todo mundo tem que estar sempre à sua disposição. Quando chega em casa, às 6 da tarde, tira o telefone do gancho e só recoloca no dia seguinte quando acorda. Não gosta de gente chata enchendo o saco. Pimenta no dos outros, né…

Há quase dois anos ligam para o meu celular, do banco Santander. As 10 primeiras vezes foram tranqüilas:

– Por favor o Senhor William
– Não tem nenhum William aqui.
– Obrigado, Senhor.
– De nada.

Na décima primeira eu comecei a me irritar:

– Por favor, dá pra tirar meu telefone da sua lista? Não tem William nenhum aqui, já falei.
– Obrigado, senhor.

Na vigésima ligação eu já estava doido de raiva:

– O Senhor William morreu!
– Obrigado, senhor.

Na trigésima, minha pressão foi às alturas:

– Eu sou o Senhor William, mas não quero falar com você. Passar bem!
– Obrigado, senhor.

Na quadragésima, a veia da minha testa estava exposta:

– O Senhor William saiu, mas deixou um recado: mandou vocês tomarem no cu.
– Obrigado, senhor.

Na quinquagésima, não deu mais pra agüentar:

– Pára de me ligar, caralho.
– Obrigado, senhor.
– Brigado é o cacete, filha da puta. Vai ligar pro celular da sua mãe, aquela vaca velha e vagabunda. Eu já falei mil vezes que eu não sou o Senhor William. Eu quero que você, o Senhor William e todo mundo do Santander dê as mãos e vá tudo pra puta que pariu, bando de arrombado filho de rapariga.
– Obrigado, senhor.

Pensa que parou por aí? Todo santo dia eles me ligavam. Às vezes eram várias ligações por dia. É engraçado, porque se eu precisar do banco às 8:15 da manhã de um domingo, ele vai estar fechado, mas pra cobrar o Senhor William eles têm funcionários disponíveis. Me ligaram até em véspera de ano novo! Resolvi acabar com esse martírio – comprei outro chip. Agora ligo pra *143 pra cadastrar o novo número e sou instruído a falar com o operador. O detalhe é que nunca entra operador nenhum na ligação. Estou há duas semanas sem celular. Tudo bem, odeio telefone mesmo.

Ah se fosse só isso… Com o advento do telefone, surgiu também a oportunidade de arrancar dinheiro de trouxa. Agora mesmo estou vendo aqui na televisão o maravilhoso comercial do Super Papo, um serviço totalmente excelente onde você pode conhecer muita gente interessante, legal e bonita. Sabe aqueles comerciais que mostram pessoas na balada falando ao telefone? Pois é. Falar ao telefone dançando é o que há, ao que parece.

Isso me faz lembrar daqueles Disk Namoro, Love Line, Paradise Line etc. de antigamente. “Você quer meu telefone? Liga pra mim. Estou com muuuita vontade de conhecer você e conversar. Aaahhh, eu tô tão carente. Liga pra mim. Eu sei que você vai adorar. Ah, se vai”. De fundo, mulheres lindas semi-nuas fazendo caras e bocas. Quando você liga, a Maria Dolores atende. Maria Dolores é separada, tem 45 anos, pesa 110 quilos e ganha 500 reais por mês para falar sacanagem ao telefone. As pessoas precisam trabalhar, né?

Tirando o Hugo (que era muito legalzinho), qualquer programa ou comercial que peça pra você ligar não presta. “Não tem chororô, telefone é um cocô”. São caça-níqueis descarados tentando arrancar dinheiro do povo. Programas de adivinhação e charada dominam a madrugada. Programas de leilão dominam as manhãs e os fins-de-semana. Até escolher o filme da Sessão da Tarde você pode. Entre aquele filme sobre uma turminha da pesada que apronta várias confusões que seu amigo te contou inteirinho e um cão do barulho aprontando várias confusões com uma galerinha pra lá de animada a Globo ganha rios de dinheiro nas parcerias com as empresas telefônicas.

Uma coisa que acho interessante são os anúncios das chamadas ‘mulheres da vida’ nos orelhões espalhados por São Paulo. Será esse o melhor lugar para se fazer tal propaganda? ‘Tati. Loira, 1,68, nível universitário. Beijo na boca e beijo grego’.  “Poxa vida, ninguém atende lá em casa, acho que vou contratar uma puta”. Já vi até alguns desses adesivos colados naqueles orelhões baixinhos, pra crianças. “Mamãe, deixa eu desligar que agora vou ligar pra Lady Tesuda”. Ou será que esses orelhões são pra anões e eu não sabia?

Telefone, pra mim, só pra pedir pizza e falar com a minha namorada. No meu aniversário, me mande um cartão. Vai poupar aquele papo idiota depois dos parabéns, que começa com “E aí, como tá o pessoal?” e só termina com “Olha, tá tarde. Amanhã eu acordo cedo”, passando por “Puta que pariu, como esse cara fala”.

Quem vê pensa que telefone é barato nesse país.

No mais, não tente ligar pra mim, com certeza estarei

ocupado.

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