15/Outubro/2008...4:21 am

Ode ao álcool, a causa e a solução de todos os nossos problemas

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Há alguns dias presenciei uma cena interessante que me fez refletir sobre um assunto muito importante e em pauta atualmente. Dirigindo por uma das principais avenidas do Largo Treze de Maio, no centro de Santo Amaro, uma das regiões mais movimentadas da capital paulista, me deparei com um senhor que, claramente bêbado, ao recostar-se em um poste, caiu de maduro e ficou ali, estirado, entre a calçada e a rua, com a cabeça no meio-fio. Como estava prestando atenção na queda, desviei a tempo. Parei no semáforo alguns metros adiante e fiquei de olho no retrovisor. Sem dúvida o fim do pobre homem seria trágico. Que nada! Ônibus, carros e motos, aos montes, um a um, desviavam na última hora da cabeça no meio do caminho.

Segui viagem pensando no que havia visto e me lembrei de uma situação parecida. Há muitos anos, eu e meu amigo Renato (mais conhecido como James Negão, vulgo Edemésio), estávamos indo para casa tarde da noite. Ao chegarmos no ponto de ônibus, observamos com muito desprazer uma enorme poça de vômito que tomava toda a calçada. Enquanto tentávamos descobrir se o autor da obra havia ou não comido ovos fritos, percebemos um senhor descendo a rua, cambaleando pela calçada em nossa direção. Como não sentimos nenhum tremor de terra, chegamos à conclusão de que ele estava mesmo bêbado. Nossa expectativa em ver o pudim-de-cana enfiando o pé no vômito crescia a cada passo. Até apostávamos se, ao escorregar, ele ia cair de costas ou de boca, engolindo os restos dos ovos fritos (sim, acredito que, afinal, havia ovos fritos ali). Para nossa surpresa, o cachaceiro pisou aqui, pisou ali, dobrou o pé acolá, trançou as pernas e atravessou o mar de comida mal-digerida com toda classe do mundo. Tenho até a sensação de que piscou pra gente, esboçou um sorriso e disse “Banzai, otários”. Tudo bem, essa última parte eu inventei, mas o resto é tudo verdade. Meu amigo James Negão, tão perplexo quanto eu, definiu bem o milagre que acabávamos de presenciar. “Deus protege os bêbados”, disse.

Fato incontestável. Verdade universal. Lei que rege o cosmos. Dito de Zaratustra. Deus protege os bêbados. Fosse eu, sóbrio, depois de escorregar em uma casca de banana, ali caído no meio-fio, e minha família já poderia providenciar o velório com caixão lacrado, pois defunto decaptado ninguém quer ver. Fosse eu ainda, indo para o trabalho, roupa limpa e passada, encontrando uma poça de vômito na calçada, já poderia me preparar pra engolir um pouco dos ovos fritos.

Pode perguntar pra qualquer um depois da ressaca. A aventura vivida na noite da bebedeira é sempre tão intensa e, ao mesmo tempo, tão espontânea e fruto do acaso (aqui mostrado como intervenção divina resultante da proteção de Deus aos bêbados), que o sujeito nem se lembra do que fez. Ele não se lembra de ter chamado o grupo de skinheads que estava em um canto do bar de nazistas, de ter mexido com a namorada do halterofilista da mesa ao lado e nem de ter chamado o policial de coxinha na volta pra casa. E o fruto de toda essa aventura é uma mera dor de cabeça. Coisa que passa.

Como eu disse, tudo isso me fez lembrar de um dos assuntos mais falados hoje em dia: o álcool. Depois da lei seca no trânsito, o moralismo alcoólico do brasileiro atingiu patamares inimagináveis. Esqueceram-se de que vivemos no país do biodiesel. O presidente até arruma desculpa para plantar mais cana. A cachaça é o combustível do nosso país. Com a opção do éster renovável, o álcool não promove só cus sem dono, mas também move a economia da nossa nação totalflex. Informantes confiáveis afirmam que o Pré-sal tem como principal finalidade servir como fonte quase inesgotável no tempero de petiscos para acompanhar a cervejada.

Sou contra a lei seca no trânsito. Acho, inclusive, que as pessoas deveriam ser encorajadas a beber antes de dirigir. Ou até mesmo antes de sair de casa. É uma questão de lógica: quem bebe não corre riscos. A vítima é o sóbrio que, sem poder desfrutar da proteção divina aos bêbados, tem o azar de entrar na frente justamente de um carro pilotado por um cachaçado. Cachaçado este que não vai, em hipótese alguma, frear em cima da hora, jogar o carro na contra-mão ou contra um muro, entre outras alternativas perigosas para si mesmo, simplesmente para poupar a vida de alguém que bebeu pouco (ou nada) e, justamente por isso, teve o azar de entrar na frente de um carro em alta velocidade.

Comece a reparar nos noticiários. O pobrezinho atropelado, invariavelmente, estava saindo da escola, do trabalho ou até mesmo da igreja. Nunca do bar. Quem estava saindo do bar era o motorista. E ele continua vivo! Se a vítima estivesse bêbada, não seria vítima, seria discípulo de Chuck Norris. Daria uma pirueta pra trás quando o carro chegasse perto, emendaria um duplo twist carpado, aterrisaria são e salvo do outro lado da rua e ninguém sairia ferido. Mais tarde motorista e pedestre poderiam até tomar uma birita juntos em comemoração ao acontecido.

Que fique claro: não estou aqui defendendo a tese de que fiz uma descoberta incrível. A proteção divina aos bêbados é fato conhecido há tempos, só não se admite por puro moralismo. Exemplos não faltam. Veja o Zeca Pagodinho. Vive vadiando, deixando a vida levar, já arrumou briga com a máfia cervejeira, só come o bagaço da laranja, mas mesmo assim está aí, firme e forte. E quem não conhece Jeremias José? O cara viveu a vida mais do que qualquer um. Já foi preso várias vezes, xingou o delegado, virou celebridade na internet e na televisão, emplacou um funk de sucesso, bebeu no inferno junto com o cão… É aventura que não acaba mais. Tudo fruto da marvada pinga. Até na ficção os benefícios da ebriedade estão presentes. Barney Gumble, famoso personagem bebum de Os Simpsons, também vive a vida plenamente. Já foi cantor, piloto de helicóptero, astronauta, diretor de cinema, entre outras coisas. A série inclusive faz menção à proteção divina aos bêbados na forma de um elefante cor-de-rosa, que Barney chama de ‘Rosinha’ (os fãs de verdade vão lembrar dessa). Todo mundo sabe disso, pra que esconder?

A contribuição do álcool para as nossas vidas é enorme. Vai desde o acendimento da churrasqueira até o auto-embelezamento da sua patroa. Voto para que a cachaça passe a fazer parte da merenda escolar de nossas crianças. É de pequeno que se aprende. Voto para que a fiscalização com o bafômetro se intensifique. Bebeu pouco? Volta pra casa. O camarada precisa estar pelo menos trançando as pernas para andar seguro por aí. Nossa vida apresenta uma janela de oportunidades e o álcool nos ajuda a viver cada uma delas plenamente, sem nos preocuparmos com as conseqüências. Reflita sobre os exemplos que dei e pense nas aventuras que você está perdendo por não beber. A vida só vale a pena quando vivida perigosamente. Como dizem, quem não bebe não tem história pra contar. É uma pena que quem bebe também não tem, pois no dia seguinte não se lembra de mais nada. Mas deve ser melhor assim. Afinal, dizem que cu de bêbado não tem dono. Tem coisas que deve ser melhor não lembrar mesmo. Pelo menos saiba que será violado com proteção. E divina.

Eu, como não agüento (e nem quero), sigo bebendo leite.

4 Comentários

  • Marylia Queiroz

    Um humor inteligente e sutilmente amargo. Melhor, ácido, não?
    Se pararmos para pensar tem lógica as suas palavras. Fato é que existe algo chamado “ironia” e, para muitos isso é um enigma. É um tanto engraçado imaginar que, quem ler o texto acima (interessante, por sinal) poderá não entender e fará tudo ao pé da letra. Apenas espero que as pessoas compreendam e exprimam uma opinião sobre aquilo que se refere, não somente, a suas vidas particulares, mas com tudo aquilo que interfere direta ou indiretamente na sociedade. Seja a influência e eloqüência cômica e besteirol dos Simpsons, a expansão dos canaviais ou a importância de manter o orifício anatomicamente discreto, conhecido por muitos como “cu” no seu devido lugar. Perdê-lo por aí sob o efeito da cachaça é fácil; difícil é encontrá-lo no ACHADOS&PERDIDOS.
    Ah! Fazendo um adendo: no meu caso, só leite com Nescau.

  • E aí Overtaker! Acho que não tem nada a ver com seu blog e muito menos com você, mas como eu decidi participar e tenho que chamar 6 pessoas, bom, enfim, convido vc pra participar de um meme (não sabe o que é? bom, eu também não sabia) passa lá no Expressionando.

    Um Abraço!

  • VictorTheGreen2, Vulgo "Verdinho" =P

    Cara, já fiz todos os elogios imagináveis pelo msn.
    Mas eu tinha que deixar um comentário aqui.
    Você é muito bom cara, te admiro muito, e AMO seus textos =P
    Volte logo a postar, PORRA!

  • Estou pensando em voltar, Victor, assim que tiver um tempinho. As coisas andam muito corridas, com emprego novo, último ano de faculdade, TCC… Nem o pirata eu etou podendo bancar direito! Mas assim que puder, pretendo voltar.


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