17/Setembro/2008...6:27 pm

O pior cego é aquele que não quer ver

Ir aos comentários

“Deprimente”, opinou o jornal The New York Times. Praticamente toda a crítica norte-americana massacrou ‘Ensaio sobre a cegueira’, novo longa de Fernando Meirelles, que ficou conhecido lá fora por ter dirigido Cidade de Deus, outro daqueles filmes do movimento favelista pelo qual o cinema brasileiro passou nos últimos anos. O estado de sítio brasileiro, mais especificamente do Rio de Janeiro, tem se mostrado um ótimo mote para o cinema nacional. Rende frutos mil. Já a ficção nunca foi nosso forte, ao menos fora das novelas. E nunca será, ao que parece, se depender da aprovação da terra dos grandes blockbusters.

A ditadura hollywoodiana prega que terceiro-mundistas não sabem contar histórias que não sejam baseadas na miséria de suas terras natais. Se uma população deve ser dizimada, que seja a de Nova Iorque. Se uma cidade deve ser destruída, que seja São Francisco. São Paulo não é digna de tal honra, ainda que, como acontece na história de ‘Ensaio’, seja uma cidade fictícia, representação genérica de qualquer cidade do mundo, habitada por quaisquer pessoas, não à toa chamadas apenas por ‘médico’, ‘mulher’ ou ‘velho’. São avatares do mundo moderno. São eu, você e também são os críticos que reclamaram do filme, ainda que estes não aceitem sê-los.

O filme de Meirelles é sublime no que se propõe: adaptar a obra consagrada de José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura, que trata do comportamento humano com a delicadeza de um elefante bêbado correndo num campo de margaridas. É direto. É reto. Não acoberta e nem sublimina. Joga a merda no ventilador e que se limpe quem achar que merece mais crédito do que as personagens do filme. Personagens estas que perdem, junto com a visão, a pose de racional do ser humano. Ironicamente, a única que se mantém ‘pessoa’ em meio a tantas ‘criaturas’ é quem se vê cega quando percebe que conheceu a verdadeira natureza do homem.

Alguns críticos reclamam do fato de o filme ser pesado, sórdido. Enganam-se. Pesado e sórdido, além de deprimente, é saber que ali estamos nós retratados. Do patrão que grita com o funcionário para satisfazer o próprio ego ao ladrão que quer tirar vantagem do trabalhador, estamos representados na metáfora da perda da visão que traz consigo o abandono da necessidade de se manter a pose frente ao próximo. Rebaixados à condição de animais, do médico à prostituta, todos mostramos – e, para apreciar o filme, temos que nos incluir nisso – o que somos por trás da carapaça que a sociedade nos faz usar.

Se a experiência comportamental está toda lá e é fiel à obra original, que analisem a parte técnica do longa. E aí as críticas se tornam mais infundadas ainda. A câmera de Meirelles é inquieta como deve se tornar a mente de alguém que perde um dos sentidos básicos e se vê enjaulado como um animal selvagem e descartado da sociedade. Os ângulos incomodam e a irregularidade é inquietante aos nossos olhos assim como a história é ao nosso orgulho. As cenas mais fortes são amenizadas pela falta ou pelo excesso de luz, e só contribuem para salientar a sensação de impotência e medo do desconhecido que a cegueira proporciona. O estupro coletivo não é mostrado, mas é sentido. A edição de Daniel Rezende é curta e grossa. É realista, eficaz e, ao mesmo tempo, contestadora assim como a direção. O arroz-com-feijão de takes que poderiam ser básicos como em todo grande blockbuster é substituído por uma salada de beterraba com chuchu que te faz perguntar o porque de estar vendo aquilo. Não gosta de beterraba com chuchu? Nem eu. Meirelles parece saber disso e usa contra nós, mas a favor de seu filme aos que conseguem perceber a janela por trás do pano fino da cortina. A cada novo grupo de ‘internos’ que chega ao complexo onde os doentes são colocados em quarentena, a cegueira nos brinda com seres esguios e deformados, quase imagens caricatas de extraterrestres, mostrando o desconhecido pavoroso que representam a um deficiente visual desde um simples obstáculo no caminho até um semelhante a dez metros de distância. Pelo incômodo, a direção, a edição e a fotografia de ’Ensaio’ chocam. E brilham.

Críticas às atuações também não faltaram. Tentemos partir do princípio de que em terra de atores ex-BBB quem tem olho é rei, com o perdão do trocadilho temático. Hollywood com suas apresentações burocráticas há muito deixou de ser referência para atuações majestosas. Temos, claro, casos que se sobressaem. Tanto para o bem quanto para o mal. Mas de Tom Hanks a Ben Affleck, atuar nada mais é que um ofício. Questionar atores como Mark Ruffalo, Julianne Moore e Danny Glover em tempos de Ísis Valverde como exemplo é, no mínimo, contraditório. Deixemos os americanos, que vêem mais magia no Gollum computadorizado de ‘Senhor dos Anéis’ do que no ser humano exposto aos seus limites, reclamarem de seus próprios atores.

‘Ensaio sobre a cegueira’, em mãos erradas, poderia sair um belo filme de zumbis digno de George Romero e suas noites, tardes e madrugadas dos mortos. Em certos pontos, a metáfora de desordem social até se assemelha aos clássicos filmes apocalípticos. Mas o monstro em questão é o próprio ser humano. Não transformado aqui em zumbi e com fome de cérebro, mas exposto à sua condição de animal e com fome de amor, carinho, zelo, aceitação, comida, orgulho, sexo, poder e tantas outras coisas de tal modo que, na ausência de tudo que preza, perde totalmente a dignidade que ostenta quando mantém as aparências.

Mas como argumento incontestável a favor do filme, Meirelles tem um trunfo que pode garantir boas noites de sono com sabor de dever cumprido. Saramago, sempre avesso a qualquer tentativa de adaptação de seu best-seller para as telonas sob a alegação de que o cinema contribui para a destruição da imaginação, deu muito mais do que seu aval ao filme. Ao final da pré-estréia, quando as luzes se acenderam, Saramago chorava. “Fernando”, disse o escritor, “estou tão feliz por ter visto este filme quanto estava quando acabei de escrever o livro”. Meirelles agradeceu com um beijo na testa de Saramago, que continuou tentando conter as lágrimas. Com a mão no rosto, o diretor parecia não acreditar no que havia ouvido. A imprensa americana que diga o que quiser. Meirelles já ganhou o melhor presente que um diretor pode querer por uma adaptação.

4 Comentários

  • Texto tão sensacional quanto o filme. Parabéns me emocionei lendo e lembrando das cenas.

    Te amo!

  • Você fez uma ótimo defesa ao ‘Ensaio’!

    Não assisti ao filme ainda, mas creio que deve estar realmente bom.

    Você viu que tem uma Associação dos Cegos nos Estados Unidos que vão processar o filme por ‘reforçar o conceito de que os cegos não são capazes de fazer nada’.

    Um bando de cegos americanos ignorantes… e mais, como eles sabem que eles são retratados de forma ruim se eles não ‘viram’ nada?

    Este texto até me incentivou, vou ver com minha esposa para irmos hoje assistir o ‘Ensaio’.

    Abraço!

  • Fala, Smaily, beleza?

    Então, eu vi esse negócio dos cegos revoltados.
    Mas é dureza aguentar uma coisa dessas… O fato de as personagens ficarem cegas é só um pano de fundo pra um estudo sobre a verdadeira natureza humana. Eles enxergavam e, de repente, são expostos à ausência de um dos sentidos primordiais da humanidade, diretamente ligado à aparência, ao orgulho e à visão de mundo de cada um. A perda da visão é uma alegoria, não uma crítica aos cegos.
    Se eles perdessem as pernas e o mundo virasse um caos será que a Associação dos Amputados ia querer processar o filme também?
    Pior do que não enxergar é não pensar…
    O duro é que vi uns sites americanos apoiando tudo isso e dizendo que o filme é preconceituoso com os cegos. Brincadeira, viu…

  • [...] Claro, lembrou disso só porque Saramago estava na crista da onda depois do lançamento do filme ‘Ensaio sobre a Cegueira’, já que, com aquela cara de estudante universitária, nunca teria ouvido falar do autor se não [...]


Deixe uma resposta