Quem não se lembra de ouvir o professor repetir inúmeras vezes que sujeito e verbo não se separa com vírgula? A resposta é simples: ninguém. Hoje em dia, lembrar de alguma coisa ensinada na escola é raridade. Escrever corretamente então, mais raridade ainda. Muita gente adota a política conformista do “Deu pra entender? Então tá bom”. Essas pessoas só se esquecem do fato de que inteligência e conhecimento não deveriam ser considerados luxo. No Orkut e no MSN pode até ser legal, prático e ‘cool’ não saber escrever e, por isso, fazer tudo de qualquer jeito usando a tal desculpa conformista. Mas existem horas em que é preciso usar tudo aquilo que aprendemos. O problema é que a maioria das pessoas não aprendeu…
Faço faculdade de Jornalismo e fico abismado com alguns erros que vejo de vez em quando. Esses dias me deparei com um título de um aluno que dizia que o futebol feminino era ‘um dos destaques brasileiro nas olímpiadas’. Imagino que o autor do texto pensou que, se o destaque é um só, usar ‘brasileiro’ no singular seria a melhor opção. Acho até um argumento válido, se fosse apresentado pela minha avó, que só fez até a 8ª série, há 60 anos, tem tanto problema na vida que esqueceu tudo que aprendeu e mesmo assim é mais inteligente – de uma forma especialmente dela, claro – do que muito pós-graduado que eu conheço. Mas de alguém que espera ser jornalista e viver de escrever, é inadmissível. Fazendo uma comparação simplista e sinteticamente falha, mas que pode exemplificar bem o tipo de pensamento errôneo que as pessoas têm nesses casos, se o futebol feminino era um dos destaques brasileiro nas olimpíadas, então a cerveja desce redonda. Erro de concordância é erro básico.
Quando percebo e corrijo esse tipo de erro, atitude corriqueira pra mim, sou chato, fresco, metido e arrogante. Repito: escrever corretamente é luxo. E se corrigir um erro crasso desses é frescura, imagine só reclamar de uma vírgula. Uma coisa tão pequena, tão insignificante. Um ponto com rabo…
“Vírgula não separa sujeito de verbo”. Essa frase parece que já virou ditado popular. Observe que eu disse que ninguém lembra do que os professores ensinam, e não do que todo mundo fala o tempo todo. O problema é o papagaismo – decorar, recitar e nem saber o significado do que se está falando.
Há alguns anos, durante a administração daquela prefeita que usa o sobrenome do ex-marido porque é mais chique que o dela, as lotações apresentavam um belo adesivo com o logotipo da SPTrans, da Prefeitura Municipal (pleonasmo maravilhosamente encontrado em várias cidades do nosso belíssimo estado) e uma frase primorosa: “O transporte do idoso, tem a nossa preferência”. Assim mesmo, com vírgula separando o sujeito do verbo. Acredito que na hora de elaborar o tal adesivo o pessoal de Comunicação da Prefeitura estava relaxado. Relaxou tanto que acabou gozando e não prestou atenção no que fazia.
No caminho para a casa da minha namorada sempre reparo em uma plaquinha bonitinha, símbolo do que acho interessante chamar de autruísmo obrigatório - por mais contraditório que isso pareça – ou da lei da compensação universal que assombra as empresas atualmente. “A viação Campo Belo e você, preservam este local”, diz o aviso. Além de escreverem errado ainda me colocam no meio.
Sou da opinião de que, quando você se propõe a fazer alguma coisa, que faça direito. Como diria um primo meu, “Não sabe dirigir, não ‘direge’!”. Se você vai escrever uma plaquinha pra colocar na rua e todo mundo que passa por ali ler, que pelo menos saiba escrever. Se não sabe, procure ao menos se informar pra não fazer besteira.
Esse assunto me veio à cabeça porque, dia desses, reparei nesta propaganda, que vem sendo veiculada há alguns meses, sobre planejamento familiar. Vale lembrar que o filme é do Governo Federal.
Coitada da pobre senhora. Ela tem que desempenhar o papel de pai e mãe e não lhe sobra tempo para estudar. “Responsabilidade, é coisa pros dois”, ela diz. “Respeito, é coisa pros dois”, emenda, não contente com um só erro. Como um é pouco, dois é bom e três quase formam uma mão do Lula completa, “Camisinha, é coisa pros dois”, completa. O que é coisa pros dois? Responsabilidade, respeito e camisinha. Três sujeitos separados do verbo por vírgula. Será possível que a agência responsável pela campanha não possui um corretor gramatical? Ou será que nosso amado presidente escreveu, ele mesmo, o texto?
Quando contei para algumas pessoas sobre isso, ouvi a clássica resposta que permeia qualquer argumentação sobre vírgulas. Dizem que a vírgula está ali porque a atriz faz uma pausa na fala. Se fosse assim, cada pessoa usaria a vírgula de um jeito. Meu vizinho, gordo e asmático, tascaria vírgula entre cada palavra. Uma amiga da minha mãe que liga aqui de vez em quando e fica três horas no telefone não usaria uma vírgula sequer. Caetano Veloso seria uma vírgula ambulante.
O pior é que, não contentes com esses três erros, o nome da campanha, dito em alto e bom som, ainda termina de assassinar a gramática e violentar a fonética. “Se cuide. Filho não é brincadeira”. Filho não, mas nossa língua é. Pronome oblíquo não inicia frase. Próclise, outro erro básico. Ninguém vai sair na rua gritando “Ouve-me, amor de minha vida. Amo-te. Quero-te. Faz-me feliz!”. A próclise é comum na linguagem falada. Mas é proibida na norma culta da língua escrita. Se isso foi escrito desse modo de propósito para tentar uma aproximação com o público – o que me soa desnecessário, já que não se trata de uma campanha publicitária pra vender camisinha, filho e nem mulher separada – que mandassem logo um “Se cuida”. Eu esperaria até um ’companheiro’ no final. Espero que o investimento em planejamento familiar dê retorno e sobre uma verba pra investir em educação.
Voltando ao assunto principal: “Então nunca se coloca vírgula entre o sujeito e o verbo?”, você me perguntaria.
Não perguntaria? Bom, vou falar sobre isso do mesmo jeito. Lembro de uma professora que tive quando era criança pequena lá em Barbacena, que, em um belo dia, me ensinou que existem casos em que a vírgula é aceita. Não é necessária, mas é aceita. Não me lembrava direito dos casos, mas encontrei uma coisa interessante. Vejam o nome do livro do japinha batuta que 10 entre 10 professores brasileiros já tiveram que ler pelo menos uma vez na vida:

Pergunta clássica ao verbo para encontramos o sujeito da oração: quem educa? Quem ama, claro. Então o sujeito é “quem ama”. Opa! Vírgula entre o sujeito e o verbo detectada. Erro? Não. A vírgula não se faz necessária, mas pode ser usada. A frase poderia ser escrita sem ela e teria o mesmo efeito: “Quem ama educa”. Mas optaram por colocar ali uma vírgula, provavelmente por tratar-se de dois verbos em seqüência. Eu não colocaria, mas ela está lá e temos que conviver com ela.
Existem outros casos onde a vírgula é permitida entre o sujeito e o verbo. “Aquelas duas gatinhas pretas com pequenas manchas brancas nas costas que adoram brincar com o novelo de lã roxo em dias frios de inverno e miam sem parar quando alguém lhes tira a ração antes de dormir, morreram”. Quem morreu? Aquelas duas gatinhas pretas com pequenas manchas brancas nas costas que adoram brincar com o novelo de lã roxo em dias frios de inverno e miam sem parar quando alguém lhes tira a ração antes de dormir. Sujeito de Itu também permite vírgula. É necessária? Não, mas ajuda. O tamanho do sujeito e a quantidade de verbos nele podem confundir algumas pessoas. É uma questão de bom-senso. Acho que não tenho muito, pois não usaria nesse caso também.
A propósito, o título deste artigo está errado. Mas não estou nem aí, nem o pessoal do Governo Federal sabe escrever, por que eu teria que saber?
9 Comentários
6/Setembro/2008 às 3:07 am
ESSE GÊNIO JÁ TEM DONA…
TE AMO
7/Setembro/2008 às 8:05 pm
Larissa,
Parabéns pelo seu gênio…rs
Fernando, seu blog é muito legal (ou seria: Seu blog, é muito legal? rs). Parabéns pela criatividade, mas não precisa detestar os blogs. Existe muita coisa boa na “blogosfera”.
Um abraço.
8/Setembro/2008 às 5:37 pm
Até o governo, que deveria servir de exemplo, assassina o pobre português, cada vez pior das pernas. Parafraseando o apelo sensato de um velhinho bondoso, correto, carismático e ético: “Estupra, mas não mata…”.
20/Fevereiro/2009 às 6:27 pm
“a cerveja desce redondo” ou “a cerveja desce redonda”. Qualquer uma das frases estará correta.
20/Fevereiro/2009 às 6:35 pm
obs:
redonda (adjetivo) = seria, é claro, uma conotação, como uma característica da cerveja. Uso muito defendido por linguístas (agora sem trema).
redondo (advérbio) = refere-se ao verbo. “desce gostoso”, “desce gelado”. A maneira como a cerveja desce.
2/Março/2009 às 10:05 pm
Belíssimo artigo meu “caro”!!!!!!!!!
2/Março/2009 às 10:11 pm
Desculpe-me pela ignorância Léo, mas, não entendi a sua explicação em relação ao redondo (advérbio). Você falou “desce gostoso”, “desce gelado”. Parece que você está adjetivando esse redondo, então, estou confundindo com ele (redondo) sendo adjetivo….Grande abraço…..
28/Março/2009 às 12:13 am
Léo, não é óbvio que a intenção dos publicitários da Skol era adjetivar o verbo? “Redonda” mudaria esse sentido, nem há o que se discutir. Mesmo porque, em época de Ronaldo em tudo que é mídia, falar sobre coisas redondas ficou clichê demais…
25/Setembro/2009 às 6:37 pm
Você mesmo citou um exemplo, sem se lembrar, de casos onde a vírgula separa o sujeito do verbo corretamente. Veja: “Meu vizinho, gordo e asmático, tascaria vírgula entre cada palavra.”. Ou seja, o aposto explicativo pode ser usado corretamente dessa forma.