15/Julho/2008...4:55 am

Aparelho eletroacústico para torrar o saco

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Veja que velhinho batuta:

Semblante singelo, não? Barbinha branca, terninho arrumadinho, ar sereno… Poderia até se vestir de Papai Noel e fazer a alegria da criançada nos shoppings. Mas este nobre senhor é uma das pessoas que mais me irritam nessa vida. Bom, não tenho nada contra ele, particularmente, mas contra o que ele fez. Talvez ele não tenha feito por mal. Pode ser que não teve a intenção de me torrar o saco. Mas o caso é que, querendo ou não, conseguiu. E por isso, mesmo que involuntariamente, ele é culpado.

Seu nome é Alexander Graham Bell, escocês nascido em 1847 a quem é atribuída a invenção do telefone (ainda que existam controvérsias). Acho improvável que ele tenha inventado o telefone só pra me provocar, já que nunca fiz nada pra ele, mas o fato é que a invenção do tio Bell é um porre. Não pelo invento em si, que, sem dúvidas, é de extrema utilidade para o homem (apesar de ser muito mais usado pela mulher), mas pelo que as pessoas fazem com ele.

Quem nunca soltou um puta que pariu ao ouvir o toque do telefone naquela hora imprópria que atire a primeira pedra. O dito cujo pode ter tocado o dia todo, mas você só vai se lembrar daquela ligação que te fez voltar pra atender bem na hora em que você corria desesperado pra soltar um barrão. E se não era engano, era algum chato que costuma ficar três horas falando sobre o tempo ou contando o filme que viu na Sessão da Tarde de ontem, sobre uma turminha da pesada que apronta várias confusões.

Poucas pessoas usam o telefone para alguma coisa realmente útil. Poucas pessoas usam o telefone de forma rápida e objetiva. Poucas pessoas têm limites e ’semancol’ quando o assunto é telefone. Eu odeio telefone. Ponto. Odeio há muito tempo e hoje foi um dia exemplar para os porquês do meu ódio.

Estou de férias do serviço e da faculdade. Sozinho em casa, quero sossego, paz e tranqüilidade. Às onze horas da manhã, o telefone tocou pela primeira vez (acho, pois quando estou dormindo ele pode esgoelar que eu ligo o foda-se e nem ouço). Olhei o número. Era minha mãe. Como estava com a boca cheia de pasta, nem me preocupei em atender. Dificilmente ela liga pra falar alguma coisa importante. Meia hora depois o telefone tocou de novo. Eu estava no computador. Corri pra atender. Era ela de novo. Quando atendi, ela já tinha desligado. Levei o telefone comigo. Mais de uma hora se passou e nada de tocar de novo. Resolvi fazer alguma coisa pra comer. TRIRIRIRIMMMMM. Cadê? Esqueci no quarto. Corri pra atender. Era ela de novo. Não deu tempo de novo. Levei o telefone para a cozinha. Comi, vi televisão, vagabundeei, bati na gata que derrubou a lata de lixo pra roubar frango… e nada do telefone tocar. Resolvi tomar banho, pois tinha dentista às 16:30. Mal ligo o chuveiro, ouço o telefone tocar. Uma, duas, três, quatro vezes…. Quando saí do banheiro, havia 7 chamadas não atendidas. Entre elas, algumas do meu pai e da minha avó. Fui ao dentista. Voltei. 8 chamadas não atendidas! Enquanto eu via ‘mãe’, ‘pai’ e ‘avó’ na lista, ele tocou.  Atendi.

- Alô.
- Oi, vó.
- Você não atende o telefone não? Sua mãe ligou aí, você não atendeu, aí ligou pro seu pai pra ele te ligar, você não atendeu, depois ligou pra mim pra eu ligar aí, você não atendeu… tá louco. Ela tá deseperada, precisando falar com você.
- Eu não tava aqui. Fui no dentista. O que ela queria?
- Avisar pra você não esquecer de ir no dentista.

O telefone na minha casa toca tanto que, certo dia, irritado, atendi dizendo “Casa da salada, qual o seu pepino?” Ainda bem que era gente da família.

Acho interessante como as pessoas ficam nervosas quando não são atendidas. Como se o mundo fosse obrigado a parar quando o telefone toca. “Parem o lançamento do foguete, desativem as turbinas, a exploração de Mercúrio vai ter que esperar, o telefone está tocando! Alô? Coronel, é sua mulher. Ela quer saber se o senhor vai jantar em casa hoje”. Completar a tal ligação acaba se transformando no objetivo do dia. Nas minhas últimas férias, no meu primeiro dia em casa, me ligaram do trabalho. Não atendi. Fiquei com raiva. Queria distância de trabalho. Ligaram o dia todo em vão. No dia seguinte resolvi atender:

- Fernando, a gente precisa da senha do não-sei-o-quê. Ontem não fizemos nada, ficamos o dia todo ligando pra você.

Eu percebi que eles ficaram o dia todo ligando pra mim, mas poxa, que falta do que fazer, não? Aposto que deixaram de fazer um monte de outras coisas pra ficar me ligando e reclamando por eu não atender o telefone. O pior é que a senha nem era minha e era o RG da chefe. E eu, em casa, de férias, que tenho que falar a tal senha? Isso que é gostar de incomodar os outros à distância. E o telefone é a arma perfeita pra isso. As pessoas perdem o tempo que poderiam estar usando para encontrar soluções para seus problemas tentando ligar para outras pessoas a fim de perguntar a solução para o tal problema ou mesmo reclamando do fato de a tal pessoa, que talvez possa ajudar a resolver o problema, não atender o telefone para tentar ajudar a resolver o problema. É um problema sério.

Tenho um tio que fica louco da vida quando não consegue falar com alguém. A família toda já conhece o bordão: “Quer trocar essa merda de celular por um kichute?” Nunca liga pra falar nada de útil, mas liga sempre. E todo mundo tem que estar sempre à sua disposição. Quando chega em casa, às 6 da tarde, tira o telefone do gancho e só recoloca no dia seguinte quando acorda. Não gosta de gente chata enchendo o saco. Pimenta no dos outros, né…

Há quase dois anos ligam para o meu celular, do banco Santander. As 10 primeiras vezes foram tranqüilas:

- Por favor o Senhor William
- Não tem nenhum William aqui.
- Obrigado, Senhor.
- De nada.

Na décima primeira eu comecei a me irritar:

- Por favor, dá pra tirar meu telefone da sua lista? Não tem William nenhum aqui, já falei.
- Obrigado, senhor.

Na vigésima ligação eu já estava doido de raiva:

- O Senhor William morreu!
- Obrigado, senhor.

Na trigésima, minha pressão foi às alturas:

- Eu sou o Senhor William, mas não quero falar com você. Passar bem!
- Obrigado, senhor.

Na quadragésima, a veia da minha testa estava exposta:

- O Senhor William saiu, mas deixou um recado: mandou vocês tomarem no cu.
- Obrigado, senhor.

Na quinquagésima, não deu mais pra agüentar:

- Pára de me ligar, caralho.
- Obrigado, senhor.
- Brigado é o cacete, filha da puta. Vai ligar pro celular da sua mãe, aquela vaca velha e vagabunda. Eu já falei mil vezes que eu não sou o Senhor William. Eu quero que você, o Senhor William e todo mundo do Santander dê as mãos e vá tudo pra puta que pariu, bando de arrombado filho de rapariga.
- Obrigado, senhor.

Pensa que parou por aí? Todo santo dia eles me ligavam. Às vezes eram várias ligações por dia. É engraçado, porque se eu precisar do banco às 8:15 da manhã de um domingo, ele vai estar fechado, mas pra cobrar o Senhor William eles têm funcionários disponíveis. Me ligaram até em véspera de ano novo! Resolvi acabar com esse martírio – comprei outro chip. Agora ligo pra *143 pra cadastrar o novo número e sou instruído a falar com o operador. O detalhe é que nunca entra operador nenhum na ligação. Estou há duas semanas sem celular. Tudo bem, odeio telefone mesmo.

Ah se fosse só isso… Com o advento do telefone, surgiu também a oportunidade de arrancar dinheiro de trouxa. Agora mesmo estou vendo aqui na televisão o maravilhoso comercial do Super Papo, um serviço totalmente excelente onde você pode conhecer muita gente interessante, legal e bonita. Sabe aqueles comerciais que mostram pessoas na balada falando ao telefone? Pois é. Falar ao telefone dançando é o que há, ao que parece.

Isso me faz lembrar daqueles Disk Namoro, Love Line, Paradise Line etc. de antigamente. “Você quer meu telefone? Liga pra mim. Estou com muuuita vontade de conhecer você e conversar. Aaahhh, eu tô tão carente. Liga pra mim. Eu sei que você vai adorar. Ah, se vai”. De fundo, mulheres lindas semi-nuas fazendo caras e bocas. Quando você liga, a Maria Dolores atende. Maria Dolores é separada, tem 45 anos, pesa 110 quilos e ganha 500 reais por mês para falar sacanagem ao telefone. As pessoas precisam trabalhar, né?

Tirando o Hugo (que era muito legalzinho), qualquer programa ou comercial que peça pra você ligar não presta. “Não tem chororô, telefone é um cocô”. São caça-níqueis descarados tentando arrancar dinheiro do povo. Programas de adivinhação e charada dominam a madrugada. Programas de leilão dominam as manhãs e os fins-de-semana. Até escolher o filme da Sessão da Tarde você pode. Entre aquele filme sobre uma turminha da pesada que apronta várias confusões que seu amigo te contou inteirinho e um cão do barulho aprontando várias confusões com uma galerinha pra lá de animada a Globo ganha rios de dinheiro nas parcerias com as empresas telefônicas.

Uma coisa que acho interessante são os anúncios das chamadas ‘mulheres da vida’ nos orelhões espalhados por São Paulo. Será esse o melhor lugar para se fazer tal propaganda? ’Tati. Loira, 1,68, nível universitário. Beijo na boca e beijo grego’.  “Poxa vida, ninguém atende lá em casa, acho que vou contratar uma puta”. Já vi até alguns desses adesivos colados naqueles orelhões baixinhos, pra crianças. “Mamãe, deixa eu desligar que agora vou ligar pra Lady Tesuda”. Ou será que esses orelhões são pra anões e eu não sabia?

Telefone, pra mim, só pra pedir pizza e falar com a minha namorada. No meu aniversário, me mande um cartão. Vai poupar aquele papo idiota depois dos parabéns, que começa com “E aí, como tá o pessoal?” e só termina com “Olha, tá tarde. Amanhã eu acordo cedo”, passando por “Puta que pariu, como esse cara fala”.

Quem vê pensa que telefone é barato nesse país.

No mais, não tente ligar pra mim, com certeza estarei

ocupado.

5 Comentários

  • Cara, muito bom o texto, tá dando pra rir bastante aqui no trabalho hehehe.

    ps.: Aqueles orelhões são para anões sim, não para crianças, mas devido à estatura acaba servindo pros dois.

  • Para anões safados, você quer dizer.

  • Telefone mais atrapalha do que ajuda. tudo bem que diminui a distância entre as pessoas, não poderíamos ficar o resto da eternidade nos comunicando por carta. Mas se não existisse telefone também não existiriam companhias telefônicas, nem reclamações contra as companhias telefônicas, nem panes telefônicas, nem privatizações de telefônicas estatais (e, consequentemente, não haveria protestos dos petistas contra as privatizações), nem operadores de telemarketing, nem os benditos celulares, nem o benditos celulares com música que ficam tocando em locais públicos, nem os benditos celulares que causam câncer, nem os benditos celulares que não são reciclados e acabam poluindo rios e solo, nem nada dessas porcarias… Enfim, seria tudo muito diferente!

    Valeu pelo link aê! Ah, e vc viu que mudaram até o nome do programa??

    Abraço

  • Além de terem mudado o nome, agora o negócio passa a toda hora do dia. Esse programa tá dominando a televisão brasileira.

  • Danielle Ribeiro Santos

    Muito divertido o teu texto, gostei muito do blog. Fiz a besteira de pedir a instalação de um telefone em casa, agora, fica uma turma dizendo que raptou um filho que eu nem sabia que tinha, fora os mudinhos que ligam a diversas horas do dia e nada falam.


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