28/Maio/2008...6:41 pm

Guerra, santa?

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São Paulo realmente é uma cidade singular. Quinta feira, 22 de maio, feriadão de Corpus Christi, dia do acordo de paz entre católicos e protestantes da Irlanda do Norte, dia em que Karoly Grosz se declarou partidário da Perestroika, aniversário da fundação do partido esquerdista francês, aniversário do maior terremoto já registrado no mundo, dia do registro da patente da grande invenção dos irmãos Wright (não lembro o que é, mas parece que voa), dia em que a Noruega adotou o uso do sistema métrico, veja você. Feriadão em São Paulo. Prolongado. Daqueles que você pensa que não vai fazer nada além de descansar, mas quando chega a segunda-feira está mais cansado do que nunca. E em São Paulo, o que aconteceu no feriadão? Na quinta, evangélicos marcharam para Jesus. No domingo, bibas marcharam para… errr… para… bom, bibas marcharam. São Paulo realmente é uma cidade singular.

A marcha para Jesus é um evento interessante. Milhares de pessoas, a maioria com aversão à parada gay, saem de um ponto e vão até outro ponto. Estão marchando para Jesus. Quando chegam ao destino, quem está lá esperando por eles? Jesus, óbvio… que não. Kaká. Sim, o bundinha mais famoso do mundo. Aquele Kaká, bambi por natureza, garoto propaganda da Gillette. Fato este que, aliás, eu não entendo, já que fazer a barba é coisa de homem. Homem adora fazer a barba pra depois sair falando que odeia fazer a barba. O Kaká tem cara de quem não tem nem pelo no saco, quanto mais na cara.  Ele faz a barba hoje e só começam a aparecer pelos de novo daqui um mês. O Mach 3 dele deve durar um ano. Se queriam um bom garoto propaganda para barbeador, deviam ter ido atrás do Bin Laden.

Bom, mas voltando à marcha, acho interessante  pensar que Jesus quer que eu saia da minha casa num feriadão prolongado e pegue um busão até o centro da cidade pra sair andando de nenhum lugar com destino a lugar nenhum no meio de um amontoado de gente pra, chegando ao final, ouvir o Kaká, que chegou de helicóptero com seus seguranças, dizer o quanto Jesus é bom. Jesus é maravilhoso, Kaká. Ele te deu um trampo como garoto propaganda da Gillette! Seria o mesmo que colocar o Marco Maciel pra fazer propaganda do Diet Shake.

Além do Kaká, algumas bandas gospel também estavam lá pra falar o quanto Jesus é bom. O que, imagino eu, deva ser necessário, porque depois d’Ele fazer o povo andar tanto sem propósito, é bom alguém tentar amenizar a coisa mesmo. Imagino que Jesus seja a pessoa mais eclética do mundo. As bandas patrocinadas pela igreja Renascer tocam rock pra Jesus, rap pra Jesus, reggae pra Jesus, samba pra Jesus, polka pra Jesus, tango pra Jesus, charleston pra Jesus, axé pra Jesus, funk pra Jesus e pagode pra Jesus. O que é uma contradição, já que axé, funk e pagode são as trilhas sonoras oficiais do inferno.

A polícia divulgou para a imprensa que 1,5 milhões de pessoas haviam marchado para Jesus. Estevam Hernandes, o único apóstolo que não foi convidado para a santa ceia, de lá dos Estados Unidos, deu piti. Disse que isso era manipulação da Globo, que mais de 5 milhões de pessoas marcharam para Jesus. Com certeza ele não tem coisas melhores para se preocupar lá em Miami, como a prisão da esposa, as acusações sobre os dois, o impedimento de voltar para o Brasil ou quanto o Kaká vai faturar fingindo que faz a barba pra dar 10% pra igreja. A preocupação do amigão de João, Pedro e companhia era só uma: mostrar que a parada para o capeta – digo, a parada gay não consegue bater a marcha para Jesus. Jesus é bom. O homossexualismo é mau. E isso não foi uma piada.

Depois da marcha para Jesus, a parada gay tomou conta do centro da cidade. Bicholetas de todo o mundo vieram para São Paulo. Pelotas e Campinas ficaram desertas. O estádio do Morumbi registrou o menor público do ano. O slogan da parada desse ano era ‘homofobia mata’. O que me soa como uma ameaça, mas tudo bem. Se eles queriam dizer que os homofóbicos extremistas que saem espancando gays são um perigo para a sociedade, deviam ter escolhido um slogan do tipo ‘neo-nazismo mata’. Se quiseram ser subjetivos, querendo dizer que a homofobia, como qualquer outro tipo de preconceito, mata a pessoa por dentro, tanto o agente quanto o receptor, pois diminui este perante a sociedade e difunde o ódio e a intolerância, deviam largar de ser biba e… bom, deve ser isso que eles quiseram dizer.

A título de observação, o site G1 disse que, durante a parada, ”a polícia apreendeu cerca de 800 mercadorias vendidas por ambulantes. A maioria, de acordo com o comandante Álvaro Camilo, foi bebida”. Caramba, comandante, assim o senhor vai ficar de fogo! Jornalista que não sabe se expressar é uma maravilha.

O site da parada gay divulgou, antes mesmo do término do evento, que 5 milhões de borboletas teriam participado. Claro, não queriam ficar atrás dos evangélicos. Mesmo porque, ficar na frente é o que as bibas mais gostam (tá, essa foi péssima). Logo depois, tiraram a informação do ar, porque viram que foram exagerados. Gay exagerado? Nuuuuuuunnnnnca, meu bem.

Levando em conta que, na teoria, ninguém que foi na marcha para Jesus compareceu na parada gay, chegamos à conclusão de que São Paulo sofreu de uma superpopulação monstruosa nesse feriadão. 5 milhões de pessoas representam 25% da população da Grande São Paulo. 10 milhões, 50%. Ou seja, evangélicos e gays procriam que nem coelhos.

Só pra constar, a polícia não quis estimar números, mas a Guarda Civil disse que a marcha teve mesmo 1,5 milhões de participantes e a parada gay, aproximadamente 3 milhões. Representantes da parada declararam: “A militância gay não leva a matemática a sério”. Brincadeira, viu… e querem ser levados a sério dando declarações como essa?

Evangélico ou gay, papai do céu adverte: mentir é feio. Ah, o aniversário de 73 anos da minha avó, no sábado, contou com 6 milhões de pessoas. Ganhei.

Como bem diz meu amigo Bruno: “Vem, Jesus, e acaba logo com isso”.

5 Comentários

  • Ótimo texto. Realmente o Brasil é o país da piada pronta. Destaque especial para o título, muito bem bolado: “Gerra, Santa?”

  • Excelente texto, só mostra o tipo de pessoa que o brasileiro é, como diria o bordão do momento: “somos todos um bando de fanfarrões”

    Mas claro, a Parada Gay é o evento do Ano!! (eu disse anO!)…um monte de homossexuais que lotam uma avenida para chamar atenção para algo q eles lutam para “não” acontecer…serem isolados e divididos em grupo diferente da sociedade.

    Ironico né???

    Sou completamente a favor das pessoas possuírem uma religião, uma fé.
    Mas sou contra os costumes da igreja, de promover dízimos, procissões e etc.
    Pra mim, uma pessoa q reza, sozinha, por vontade própria, tem tanta religião (ou até mais), do que aquele q vai na igreja por ir (ou pq os pais forçam).

    Mas enfim…
    Feriado descansando, definitivamente é bem melhor q ambos os eventos.

  • Uma característica interessante da parada gay é que, como diz o Brneo lá da OS, eles não estão ali buscando alguma coisa.

    Por exemplo, se fosse uma passeata a favor do casamento gay, tentando aprovar a lei que permite que casais gays adotem filhos ou qualquer outra coisa do gênero, seria um manifesto valido, mesmo que eu não concorde.

    Mas não é isso que acontece. É bagunça, é zona, é gente querendo se aparecer e ser mais ridículo que o camarada do lado. Claro que não são todos, mas alguns parecem que estão desfilando no carnaval.

    Dá vontade de chegar num cara desses e falar “Meu, como você quer que a justiça te dê o direito de criar um filho se você é ridículo ao ponto de sair andando praticamente pelado no centro de São Paulo, com máscara da tiazinha e um monte de pena no cu”.

    Antigamente tínhamos manifestações válidas. Vide os caras-pintadas ou a revolução constitucionalista. Hoje em dia é zona.

    Um professor meu disse um dia que nunca mais viu músicas de protesto como na época da ditadura. Pra mim não é só na música que isso acontece. O povo emburrece cada vez mais e o que deveria ser protesto ou reivindicação vira festa, bagunça, orgia e libertinagem.

  • É, tio Over, acho que o povo tem que se lascar mesmo para adquirir um pouco de consciência com o que está a sua volta. Hoje em dia mesmo com todas as dificuldes, o conformismo é tamanho que as pessoas se resignam em levar uma vida medíocre, em um emprego medíocre, assistindo Gugu e Domingão do Faustão ao domingos enchendo a pança de cerveja. Parte da culpa é o sistema educacional retrógado e irresponsável atual. Por isso não há mais caras pintadas, músicas ou manifestções relevantes… No lugar, só baderna e conformismo incondicional em expansão.

  • No tempo em que a inquisição botava ordem no barraco, não existia nada disso. Heresia! Uma parada de afeminados dias depois de uma marcha evangélica que aconteceu num feriado católico! Sou bem mais a marcha da maconha! Ou em defesa das pessoas que sofrem com preconceito por terem as hemorróidas inflamadas (quente, isso). No fim, que todos marchem para o inferno.

    Ótimo texto, ri demais.

    Sobre o Hyper QI, acho que dá pra ganhar uma grana escrevendo umas laudas pra eles lerem no ar. O texto não muda. São duas horas com uma apresentadora olhando na sua cara e te provocando. E tem uma que nem fala nada… Isso tudo sem contar as repentinas mudanças de humor que elas têm no ar. Como bem disse um amigo meu, se a Redetv tem dinheiro pra comprar programas como Dr. Hollywood e The Contender, por que não coloca alguma coisa no lugar dessa porcaria?

    É isso.

    Abraço.


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