11/Maio/2008...6:26 am

Pan o quê?

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Ontem aconteceu o primeiro Pangea Day. Um evento que, segundo os próprios organizadores, tem como propósito unir o mundo através de filmes. Curtas, para ser mais exato. Um tributo ao poder da imagem no papel de unificar povos e nações. Pois é, o Pangea Day aconteceu dia 10 de maio de 2008, no Cairo, em Kigali, Londres, Los Angeles, Mumbai e no Rio de Janeiro. O programa foi todo televisionado para milhões de espectadores em centenas de países em 7 idiomas diferentes. Milhares de pessoas estavam envolvidas. Celebridades como Cameron Diaz e Robin Williams participaram. O excelentíssimo Ministro da Cultura do país do Créu também. Cantou em francês, talvez por achar que o idioma tupiniquim não seja tão ‘blasé’. O evento durou quatro horas e, no Brasil, foi transmitido na íntegra pelo canal a cabo Multishow. Você sabia? E a identidade do suposto sufocador da favela da Portelinha, minha amiga, você sabe? E os resultados da primeira rodada do Brasileirão, meu amigo, você sabe? E a participação da Mulher Melancia no Zorra Total, vocês viram? Pois é, o Pangea Day aconteceu ontem.

Se me fosse concedida a oportunidade de escolher uma profissão do thin air, eu escolheria ser diretor de cinema. Escritor, produtor e diretor, pra ser mais exato. O cinema me fascina desde sempre. Assistir a um filme, pra mim, é um ritual. Se falar, te olho torto. Até minha bexiga tem medo de se encher nessa hora. Um suspiro que o ator dá, imposto pelo roteiro, pelos caprichos do diretor ou mesmo pela experiência na composição da personagem é um leque de interpretações na minha cabeça. Vejo poesia e sensibilidade em muitas coisas – nos filmes bons, claro – e tenho raiva de quem não percebe isso. Pior: tenho raiva de quem nem tenta perceber, mas vê poesia (ou graça) no Juvenal Antena de bazuca. Cinema é uma das minhas paixões e provavelmente será tema recorrente por aqui. Sendo assim, sempre me interessei por curtas também. Mas apesar de alguns festivais por aí, eles nunca fizeram parte da cultura pop mainstream. Sempre foram aquele tipo de coisa ligada a amadores, iniciantes ou a assuntos institucionais. Basta observar que o curta de maior sucesso no Brasil é Ilha das Flores (genial, diga-se de passagem), exibido até pouco tempo em escolas para seres humanos de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Espero que o Pangea Day consiga mudar isso. O website oficial do evento promete novas edições a cada ano. A julgar pelo aparente sucesso, tudo leva a crer que a promessa será cumprida.

Vamos aos curtas. Alguns realmente me impressionaram. Talvez por se tratar de um evento mundial, voltado a temas como globalização, cidadania e muitas outras coisas belas e faceiras no papel, o sentimento de ‘mais um no mundo’, tão presente em conceitos desesperadores de aldeia global, reinou absoluto. Quem sabe misturado àquela impressão de pequeneza diante da grandeza do mundo e das diferenças que essa grandeza impõe. Três, em especial, me chamaram a atenção:

A Thousand Words, do diretor americano Ted Chung, prima pela simplicidade e, ao mesmo tempo, profundidade do roteiro. Você já viu uma pessoa – que talvez nunca mais vá ver na vida -, com quem acha que valeria a pena trocar algumas palavras? Não falo só de um interesse amoroso, como no curta, mas interesses que envolvam qualquer tipo de relação social. Por que meu melhor amigo tem que ser o cara que cresceu na mesma vizinhança que eu? Por que o amor da sua vida não pode ter nascido no Azerbaijão? Somos presos a limitações geográficas. Mas, pior que isso, são nossas limitações sociais. Trocar palavras com um desconhecido não devia ser algo tão difícil. Somos todos seres humanos com vontades, manias, tiques, desejos, imperfeições e todos nos sentamos na privada quando o estômago pede. Você consegue imaginar o Sílvio Santos borrando a porcelana? E o Michael Jackson, a Gisele Bündchen… sinto dizer, mas eles borram. Os olimpianos da mitologia moderna são de carne e osso, como nós. Por que não falar com a pessoa sentada no banco ao lado? É isto que o filme mostra. A princípio achei o final inesperado e incompleto, mas depois de ver algumas vezes mais, percebi que é como devia ser: um exercício da imaginação. Infelizmente, algumas pessoas simplesmente não a têm.

I’ll Wait For The Next One, do francês Philippe Orreindy, mostra alguns momentos na vida de uma mulher solteira que, claramente, busca alguém com quem exercitar sua visão do amor. O tom engraçado e inustado do vídeo dá lugar a uma surpresa no final. Confesso que quase chorei das três vezes que vi. Poderia gerar uma boa reflexão sobre como é complicado encontrar alguém que valha a pena no meio de tanta gente diferente, ou mesmo sobre como não ter alguém com quem compartilhar a vida pode ser triste.

O terceiro vídeo, particularmente, é o que mais me agradou. Inja (não encontrei o vídeo no Youtube, mas clicando no link você pode vê-lo com legenda em Português), do australiano Steve Pasvolsky, conta a história de um sulafricano, seu patrão e o cão do patrão. Incrível como, sem mostrar muita coisa, o filme consegue ser forte e chocante. A cena do cão com lágrimas nos olhos é de partir o coração. Uma análise aprofundada pode levantar inúmeros temas: maus-tratos de animais, arrogância, frieza, amizade, rancor, obediência… E, novamente, depois de assistir ao vídeo algumas vezes, o final me pareceu extremamente satisfatório, deixando a cargo do espectador o desfecho da história.

Em tempo: odeio novela, mas preciso conhecer pra depois criticar. Futebol é o pão e circo moderno, mas vou ver o Verdão campeão brasileiro esse ano. E de Zorra Total passo longe, mas vi a propaganda.

No mais, que o Pangea Day se torne um sucesso. 

2 Comentários

  • Muito bom tio over, vou acompanhar seu blog!

  • Cara, muito bom seu blog, opa, desculpa, não é um blog! Muito bom seu Não-Blog!

    Apóio suas idéias! Zorra Total não presta (praça é nossa é farinha do mesmo saco), Créu é o lixo da sociedade e novela é para tias que ficam em casa e não tiveram oportunidades melhores na vida e ficam sonhando acordadas com as histórias televisivas.

    Também gosto muito de cinema (mas acho que não sou tão detalhista e perceptivo quanto você disse que é).

    De vez em quando passarei por aqui!

    Falows!


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